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“Nunca fui amada” — Lima Duarte, de 96 anos, que vive sozinha numa quinta, revela o que 70 séries televisivas podem oferecer.

Tenho 93 para 94 anos. E sou reconheço, sou um milagre de lucidez para a idade. Mas enquanto vê este vídeo, Lima O Duarte está acordado, provavelmente sentado na varanda de um sítio em Indaiatuba, no interior de São Paulo, olhando para o verde que ele próprio plantou, sem maquilhagem, sem câmara de TV, sem realizador  a gritar ação.

Aos 96 anos, o homem que esteve presente no dia em que a televisão brasileira nasceu vive agora em silêncio, rodeado de árvores e de recordações. Ele tem uma sala dentro da casa que funciona como um pequeno museu, estantes cheias de livros, quadros nas  paredes, objetos de cena que marcaram gerações.

 É ali que Lima Duarte guarda  o que restaram de mais de 70 novelas, 30 filmes e uma carreira que atravessou sete  décadas. Tudo organizado, tudo parado, como se o tempo tivesse decidido respeitar aquele espaço. Do lado de fora, fotografa aves, cuida do plantil e grava vídeos para  o telemóvel.

 Num deles, publicado nas redes sociais, olha diretamente para a câmara e diz com uma calma que arrepia: “O que é o futuro para mim? Dobrando a esquina, o que é que está à a minha espera? A morte. Não sou nenhum idiota. Tenho 94 anos. Ele tinha 94 quando disse isso, tem agora 96 e continua à espera da esquina com o mesmo olhar firme.

 Esse é o mesmo homem que criou o Sinzinho Malta, o mesmo que fez o Brasil inteiro repetir: “Tenho razão ou estou errado?” em 1985, o mesmo que foi convidado para ser vice-presidente da República, depois de viver uma personagem tão real que o povo acreditava que ele podia governar o país. O mesmo que viu nascer a TV Tupi e morrer, que viu a Globo tornar-se a maior emissora da América Latina e que um dia decidiu ir embora de tudo isso.

Não foi despedido, não foi esquecido. Lima Duarte optou por sair e essa escolha talvez diga mais sobre os bastidores  da fama no Brasil do que qualquer entrevista já publicada. Mas o que lhe aconteceu? O que um homem que viveu tantas vidas faz quando decide deixar de atuar? E por aos 96 anos ele parece mais lúcido e mais livre do que quando estava no auge? Se esse vídeo já te fez querer saber a resposta, deixa já o like.

 É rápido e ajuda-me a continuar a contar histórias que a TV já não conta. Mas a história de Lima Duarte não começa num estúdio de televisão, começa num povoado perdido de Minas Gerais, em cima de um camião de mangas, com um menino que nem sabia que um dia o Brasil inteiro ia saber o nome dele. O ano era 1930. O lugar, um povoado que quase ninguém conhece.

 Desemboque, distrito de Sacramento,  no interior de Minas Gerais. Um lugar tão pequeno que Lima Duarte costumava  dizer que ali toda a gente sabia o nome de todo o mundo. Foi neste cenário, entre poeira  e estrada de terra batida, que nasceu Ariclenes Venâncio Martins, filho de António José Martins, um boieiro auarino, e de América Martins,  uma mulher que trazia no sangue algo que ninguém esperava encontrar naquele sertão. a arte.

 América era artista de circo e foi ela que sem querer plantou no filho a primeira semente de tudo o que viria mais tarde. Lima Duarte conta que a sua mãe levou-o ao palco ainda criança. Em uma peça chamada Ladra, o menino Ariclenes tinha uma única fala, uma deixa simples que ele precisava de entregar para a mãe entrar  em cena.

 E foi assim que roubei este pedaço de pão. Era uma frase pequena,  mas para aquele miúdo do interior de Minas foi o suficiente. Ali, naquele instante, sentiu algo que nunca mais largou. A infância, porém, não foi leve. O pai trabalhava com gado, os dois irmãos ajudavam na lida da propriedade e o dinheiro era curto.

 Ariclenes cresceu no ritmo do campo entre o trabalho manual e as histórias que a mãe contava. E foi precisamente a mãe quem tomou uma decisão que mudaria tudo. América era espírita e em determinado momento orientou o filho a seguir para São Paulo. Disse que ele precisava de ir, que ali naquele povoado o menino não ia encontrar o que procurava.

Em 1946, aos 16 anos, Ariclenes Venâncio  Martins subiu para um camião que transportava mangas e partiu para a capital, sem dinheiro, sem contacto, sem garantia nenhuma. Levava apenas à  vontade de ser ator e a palavra da mãe. Foi a própria América que sugeriu o nome artístico  que carregaria para sempre, Lima Duarte.

O nome, segundo ele, terá partido de um guia espiritual da mãe. Ariclenes morreu naquela estrada. Lima Duarte nasceu no asfalto de São Paulo. A chegada na metrópole foi dura. O miúdo do interior não conhecia ninguém, não tinha onde dormir e não sabia por onde  começar. O plano era investir na carreira de ator, mas a televisão ainda não existia no Brasil.

 O caminho mais viável era a rádio, que naquela época era o centro do entretenimento nacional. Lima começou por baixo. Trabalhou como faz tudo numa estação. Faxina, carregamento de equipamento, o que aparecesse, até que conseguiu uma vaga como sonoplasta. Dali,  devagar, foi-se aproximando do microfone, primeiro como assistente, depois como radioator.

 E foi na rádio Tupi  que finalmente encontrou o espaço. Foram 26 anos na estação, construindo um nome que poucos fora da rádio conheciam, mas o destino tinha outros planos. Em 18 de  setembro de 1950, a televisão brasileira entrou no ar através da primeira  vez e Lima Duarte estava lá no estúdio ao vivo no meio do caos.

 Conta que pouco antes  da transmissão inaugural, uma das três câmaras quebrou. O técnico americano quis adiar, mas Cassiano Gabus Mendes mandou toda a gente esquecer o  que tinha sido ensaiado e colocar o programa no ar assim mesmo. Vocês  vão fazendo o que eu for mandando disse Cano. E assim começou a televisão no Brasil no improviso e Lima O Duarte estava dentro dele.

 Um ano depois, em 1951, participou na primeira telenovela da América Latina. A sua vida pertence-me de Walter Forster. Interpretou o vilão Nestor. A telenovela era transmitida ao vivo, sem gravação, sem edição. Se errasse, todo o Brasil via. Lima não errou. E a partir daí, o seu  rosto começou a misturar-se com a própria história da TV brasileira.

 Nos anos seguintes, fez de tudo. Atuou nas telenovelas, fez dobragens  de desenhos animados da Hana Barbera, foi a voz do manda chuva, do Wall Gator e do Dundum. Trabalhou no teatro, entrou para o Teatro de Arena em 1961, onde permaneceu durante 10 anos e participou em montagens de protesto ao lado de nomes como Augusto  Boal e Jan Francesco Guarnieri.

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