O Brasil inteiro conhece este sorriso. A menina de Minissia e Botas Brancas que dançava na TV Record todas as tardes de domingo. A ternurinha, a primeira popstar feminina deste país. Mas por detrás daquele sorriso, Vanderley carregou durante décadas uma dor que quase ninguém conhece verdadeiramente. E esta dor tem um cenário que se repete.
uma piscina. Na primeira vez, a piscina levou o grande amor da vida dela. A segunda vez levou o filho de 2 anos. Para trazer este documentário, foram semanas a pesquisar entrevistas, reportagens e a autobiografia que a A própria Vandeleia escreveu sob a forma de diário. Toda a gente conhece a ternurinha, a imagem doce, o apelido carinhoso, as músicas que marcaram gerações.
Mas o que aconteceu quando as câmaras se apagaram e os palcos esvaziaram foi tão brutal que a própria Vanderleia precisou de 40 anos para conseguir colocar no papel. E esta história começa muito antes da Jovem Guarda. Começa com uma menina de 10 anos em Governador Valadares e uma bala perdida. Governador Valadares, interior de Minas Gerais, 1944.
Numa casa cheia de gente, nasce mais uma menina. Wonderlea Sharlope Bower Salim, filha de imigrantes libaneses, criada no meio de 13 irmãos. 13. e quase todos com nomes, começando por Wonder, Wonder, Wonderley, Wonderbell, Wonderbill, uma família inteira que parecia encaixar dentro de uma só palavra. O pai, o senhor António Sin, trabalhava com máquinas e tratores.

Homem conservador, de poucas palavras e muitas regras. Em sua casa, menina aprendia prendas domésticas. Menina não saía de noite e menina, com toda a certeza, não ia tornar-se cantora, mas a menina não concordava. Wonderlea cresceu com o rádio ligado. A mãe ouvia música o dia inteiro e a filha ficava ali colada num aparelho que ficava numa prateleira lá no cimo da parede.
Aos 3 anos de idade, sem saber falar direito ainda, ela apontou para o rádio e disse à mãe: “Um dia vou cantar lá”. Aos 10 anos já ganhava concursos em rádios do Rio de Janeiro. A família tinha-se mudado paraa ilha do governador e a menina tratou de se inscrever em tudo quanto era programa infantil. Ganhava um, ganhava outro, ganhava o seguinte.
O pai achava giro. Coisa de criança. Não era coisa de crianças. Porque enquanto Vanderleia sonhava com microfones e palcos, a vida já estava cobrando o primeiro preço. A sua irmã mais velha, Wonderlane, toda a gente chamava de Leninha, tinha 17 anos. Um dia, no Rio de Janeiro, em plena uma troca de tiros entre bandidos, uma bala perdida atingiu Leninha e matou.
Vanderleia tinha 10 anos. 10 anos. E já sabia o que era perder alguém para uma violência absurda, aleatória, sem explicação nenhuma. À família Salim, uma família de imigrantes tentando estabelecer-se num país estranho. Foi um terramoto. Foi na autobiografia dela. Foi. Ah, sim. Esta morte aparece logo no início do livro, como se Vanderleyer quisesse dizer: “Antes de eu ser a ternurinha, eu eu fui a menina que perdeu a irmã, mas a menina não parou.
Aos 15 anos já cantava em discotecas do Rio de Janeiro. Denoite, menor de idade. Precisava de autorização dos pais e do tribunal de menores para subir ao palco e conseguia as duas. Em 62 gravou o primeiro compacto. Em 63 o primeiro LP pela CBS. O pai foi com ela assinar o contrato na gravadora resignado porque já tinha entendido.
Aquela filha não ia largar a música, nem por regra, nem por medo, nem por dor. E foi precisamente nessa editora que Vanderleia conheceu um rapaz que também estava a gravar o primeiro disco dele. O seu nome era Roberto Carlos. Foi na CBS que tudo começou a mudar. Vanderleia tinha 17 anos e encontrou nos corredores da editora discográfica um rapaz magro de olhos escuros.

Roberto Carlos. Ela própria conta que houve paquera no começo. Achou-o um gato, mas logo percebeu que aquele gato era demasiado assediado e que paquera e carreira juntos não iam funcionar. Havia também o Erasmo. Vivia fazendo juras de amor nos bastidores. Mas depois a Vanderleia chegava na cochia e encontrava os dois ali de tu cabelo se arrumando para o programa.
e acabava com qualquer clima. Nunca namorou nenhum dos dois e diz que foi a melhor decisão da sua vida. Os três funcionavam como irmãos. Em 65, a TV Record chama Roberto para apresentar um programa dominical dirigido pro público jovem. Ele aceita com uma condição. Leva Erasmo e Vanderlle com ele. 22 de Agosto de 65.
Estreia a jovem guarda. Em menos de trs meses, 3 milhões de espectadores. Só em São Paulo. As ruas ficavam vazias aos domingos à tarde. O país inteiro colava-se à frente de uma TV para ver três jovens a cantar, dançando, rindo. E no centro daquele palco de Minissia e botas até à coxa, estava Wonderlea. Numa altura em que se esperava que a rapariga de família fosse bem comportada, Wanderleia subia ao palco de Minissia, calças, boca de sino, umbigo de fora e cantava rock em plena ditadura militar.
O impacto foi tão grande que surgiu uma marca com o nome dela. A fábrica estrela lançou bonecas inspiradas nela. As meninas imitavam o cabelo, copiavam as roupa, repetiam os gestos. Vanderlea não era apenas uma cantora famosa, era um produto de prateleira com uma boneca à sua imagem e uma geração inteiro de raparigas a quererem ser ela.
Isto nunca tinha acontecido com uma mulher no Brasil. Este é o retrato que o Brasil guarda de Vanderleia. A menina de Minissaia a sorrir na TV Record, partilhando o palco com Roberto e Erasmo. Alegre, colorida, invencível. Mas o que quase ninguém sabia é que enquanto a ternurinha sorria nas câmaras, a Vanderleia, de verdade, já tinha começado a pagar um preço altíssimo e a conta ia chegar a uma piscina.
O seu nome era José Renato Barbosa de Medeiros. Nanatu, como todos lhe chamavam, filho do Chacrinha. Vanderleia conheceu-o na época da Jovem Guarda e apaixonou-se do jeito que se apaixona quem está a viver tudo pela primeira vez. Ele era bonito, divertido, de temperamento doce. para Vanderleia, que vivia rodeada de holofotes e multidões.
O Nanato era o contrário de tudo aquilo. Era silêncio, era casa, era futuro. 7 anos juntos noivaram, planearam casamento. palco, a ternurinha em casa a noiva de Nanato, uma mulher que sonhava com filhos e um futuro que parecia garantido. Semana Santa de 1971. O casal viaja com amigos para uma quinta no interior.
Dia quente, tempo de feriado, piscina. Zé Renato decide dar um mergulho. Mergulha de cabeça num ponto pouco profundo. Bate com força no fundo. O impacto destruiu a coluna cervical dele. Braços, pernas, mãos. Com 20 e poucos anos, o filho do chakrinha ficou tetraplégico. Um gesto banal. um mergulho numa piscina de amigos e de repente todo aquele futuro simplesmente deixou de existir.
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Vandeleia não se foi embora, reorganizou a vida para ficar do lado dele. Acompanhava internamentos, fisioterapias, tratamentos. A mesma mulher que parecia livre e indestrutível na televisão, agora passava noites num hospital empurrando cadeira de rodas e o Brasil nem sabia. Até que um dia, o Z.
Renato tomou uma decisão. Disse que não queria ser um peso na vida dela, que ela merecia uma vida que ele não podia mais oferecer. e pediu a Vanderleia para ir embora. Ela lutou para ficar, insistiu, mas Nanato não mudou de ideias e ela, respeitando a sua decisão, separou-se do homem que amava. Depois de 7 anos juntos, depois de planos de casamento, depois de imaginar uma vida inteira ao lado dele, acabou.
A depressão veio com tudo e por baixo da culpa e da tristeza, uma sensação que não lhe saía da cabeça, a de que o destino estava a persegui-la. Primeiro, a irmã morta por uma bala perdida, agora o noivo destruído por um mergulho numa piscina. Duas tragédias absurdas, aleatórias, sem explicação. Vanderlea achava que a piscina já tinha tirado dela o pior que podia tirar.
Mas antes de chegar a esse momento, a vida ainda lhe ia dar um breve período de luz, um novo amor, uma nova música e um filho. Depois de Nanato, Vanderleia ficou um tempo sem chão, mas a música não deixou ela parar. Quem realmente mudou a vida dela nesta fase foi Guismonte, pianista, compositor Brilante. Trouxe a Vanderleia um novo amor e uma nova música.
Em 77, os dois gravam juntos o álbum Vamos, que eu já vou e Vanderlea larga o rótulo de musa da Jovem Guarda e mergulha num som que ninguém esperava dela. Nos anos 70, gravou canções de Caetano Veloso, Gilberto Jill, Gonzaguinha, Raul Seixas. A menina que começou por cantar rock em discotecas aos 15, estava agora a compor a banda sonora de uma nova fase da MPB.
E foi nesta fase que apareceu o Lalo. Lalo Correa, chilenel, guitarrista, conhecido como Lalo, Califórnia. Os dois conheceram-se num concerto em São Paulo, começaram a namorar e em pouco tempo estavam casados. Com Lo, Vanderley encontrou algo que não tinha desde os tempos de Nanato. Estabilidade, alguém que tocava guitarra ao lado dela no palco e sentava-se ao lado dela no sofá.
E em 1982, nasceu Leonardo, o primeiro filho dos dois. Vanderleia tinha 38 anos. Já tinha perdido a irmã por bala perdida. Já tinha visto o grande amor da sua vida ficar preso a uma cadeira de rodas. Já tinha atravessado uma depressão, luto, sol em baixo. E agora, finalmente, segurava um filho ao colo. Ela disse que Leonardo encantou a vida dela durante 2 anos, que aquele período foi uma dádiva de Deus no meio de tantas perdas.
Pela primeira vez em muito tempo, Vanderleia não estava a lutar contra nada, estava só a viver. Dois anos. Leonardo encantou a vida dela durante do anos e depois, numa tarde em que Vanderleia não estava em casa, a piscina voltou. 1984, O Leonardo tinha 2 anos, quase três. Era uma tarde comum. A Wonderlea não estava em casa.
estava em São Paulo a gravar uma participação no programa do Flávio Cavalcante no SBT, fazendo o que fazia há mais de 20 anos. Trabalhar, cantar, ser a artista que o público esperava. Em casa, o Leonardo estava a brincar na área exterior, andando de triciclo. Ninguém viu o momento exato. O menino caiu na piscina.
Quando se aperceberam, tentaram socorrer. Tiraram-no da água, chamaram. Ajuda. Leonardo não resistiu. A ternurinha estava num estúdio de televisão a cantar para milhões de pessoas no momento em que o seu filho afogava-se na piscina de casa. Pensa nisso por um segundo. A mesma piscina. 13 anos antes, uma piscina tinha tirado dela um noivo, o futuro, o plano de vida inteira.
Agora, uma piscina tirava o filho. A primeira vez a água levou o amor. A segunda vez levou tudo. Na autobiografia, Vanderlea coloca a morte de Leonardo acima de todas as outras dores, acima da irmã, acima de Nanato, acima de tudo. Ela entrou numa depressão que foi diferente de todas as anteriores. Não era tristeza, era destruição.
Precisou de medicamentos fortes para conseguir dormir, para conseguir levantar-se da cama, para conseguir fingir que ainda funcionava. E tinha a culpa, a culpa de não estar em casa, a culpa de estar num estúdio de TV, sorrindo, cantando, sendo a ternurinha enquanto o filho dela necessitava. A própria disse já com mais de 70 anos que a coisa da água ficou para mim, que a piscina tornou-se um símbolo na vida dela, um local que deveria ser de lazer, mas que para Vanderleia representava o pior recordação que ela transporta.
O casamento com Lalo foi ao chão. Dois pais destruídos dentro da mesma casa, cada um tentando sobreviver à sua maneira e a carreira não parava. Verlea não teve tempo de viver o luto. Não teve tempo para parar, de chorar o que precisava chorar. O espetáculo tinha que continuar e continuou. por fora, artista profissional que seguia sorrindo paraa plateia.
Por dentro, uma mãe convencida de que falhou no momento mais importante da vida dela. Décadas mais tarde, Vanderlea admitiu que o livro foi a primeira vez que ela enfrentou estes lutos de verdade. Lutos que ficaram empurrados para o canto durante anos. o do Nanato, o do Leonardo, o do pai e o de um irmão que ela ainda ia perder.
Se parar para contar, a lista é difícil de acreditar. Aos 10 anos, a irmã Leninha, morta por bala perdida. Aos 20 e poucos, o noivo tetraplégico, depois de um mergulho na piscina. Aos 40, o filho de dois anos afogado na piscina de casa e ainda não tinha terminado. Veio a morte do pai, o senhor António Salin, o homem que não queria que a filha fosse cantora, mas que no final foi com ela assinar o contrato na editora.
Foi-se embora. E poucos anos depois, Vanderleia perdeu o irmão mais próximo que tinha. Vander Bill ou Bill não era apenas irmão, era o seu estilista, o empresário, o confident, o irmão que sabia de tudo. Bill lutou durante 10 anos contra Aides, numa altura em que a doença ainda carregava um estigma brutal. Manteve-se ativo até ao fim, cuidando do figurino, acompanhando espetáculos, vivendo como se o tempo não estivesse a contar.
Mas o tempo estava a contar. E em 94, O Bill morreu. O corpo de Vanderleia não aguentou. a irmã, o noivo, o filho, o pai, o o irmão, cinco perdas que teriam destruído qualquer pessoa. E ela teve de atravessar todas enquanto subia ao palco e sorria. A depressão, desta vez trouxe consigo uma doença no organismo, cancro no útero.
A própria Vanderlea associa uma coisa à outra. diz que o corpo somatizou anos de dor, teve de fazer uma hiserectomia e com útero foi-se embora também a possibilidade de voltar a ser mãe. Na autobiografia, ela revela pela primeira vez que fez dois abortos antes dos 30 anos. escreveu sobre isso na primeira pessoa, sobre o conflito, sobre a dor e disse que a própria mulher é a que mais sofre e que ninguém deve discriminar quem passa por isso.
Numa época em que o tema era tabu absoluto, a ternurinha estava a tomar duríssimas decisões sobre o próprio corpo em total silêncio. E houve mais uma revelação. Durante décadas, o Brasil acreditou que ela tinha nascido em 46. No livro Vanderleia corrige. Nasceu em 44. Dois anos antes. A mentira começou na escola, pegou e a acompanhou durante toda a carreira.
Até a idade dela carregava um segredo. Depois de tudo o que esta mulher atravessou, qualquer pessoa teria desistido. Vanderleia não desistiu. Mas o que fez ela com toda esta dor? É, talvez a parte mais surpreendente dessa história. Verleia fez uma coisa que quase ninguém esperava. Não parou. Não parou depois da irmã.
Não parou depois de Nanato. Não parou depois de Leonardo. Não parou depois de pai. do irmão, do cancro, da esterectomia. Continuou a subir ao palco, continuou cantando, continuou a ser vana. E o casamento com Lalo que parecia ter ido ao chão, não acabou. Eles continuam casados mais de 40 anos juntos, mas vivem em casas separadas.
Perceberam que vivendo juntos não se davam tão bem e inventaram o próprio formato. Casados, apaixonados, mas cada um em sua casa. Vanderlé diz que está muito feliz assim, mas em 22 de novembro de 2022, Vanderleia perdeu mais uma pessoa e desta vez o Brasil inteiro sentiu junto. Erasmo Carlos morreu no Rio de Janeiro aos 81 anos.
O tremendão, o parceiro desde o início, o rapaz que fazia touca no camarim e acabava com qualquer clima. O mesmo que vivia a fazer juras de amor e que ela nunca levou a sério, precisamente porque a amizade valia mais. Foi-se embora. Vanderleia gravou um depoimento que virou manchete. Chamou a Erasmo, de talento, de poeta, de gigante gentil e terminou com uma frase que só alguém que perdeu tanta gente sabe dizer.
Amado Erasmo, que os anjos de luz te recebam com todo o amor. Que a sua luz brilhe, assim como brilhou aqui na terra. que brilhe no céu. Com a morte de Erasmo, o trio da Jovem Guarda partiu-se. Roberto Carlos segue vivo, mas cada vez mais reservado, mais recluso. Duas três, a que continua na estrada, viajar, subir ao palco toda semana é Vanderleia, a ternurinha.
aos 82 anos. Em 2023, ela lançou um disco pela editora Sesc. Vandeleia canta choros. Um regresso às origens, ao som que ela ouvia colada naquele rádio lá no alto da parede quando tinha 3 anos e disse para a mãe que um dia ia cantar. A agenda não pára. Em 2026, concertos agendados pelo interior de São Paulo, 82 anos, sexta década de carreira.
E Vanderleia continua a fazer-se à estrada. Talvez o mais impressionante seja o facto de esta mulher, depois de perder a irmã, o noivo, o filho, o pai, o irmão, a saúde e a possibilidade de voltar a ser mãe, ainda escolha toda a semana subir a um palco e cantar. À primeira vista, esta pode parecer apenas mais uma história de tragédia.
Uma menina que perdeu a irmã para uma bala perdida. O noivo numa piscina, o filho Leonardo na mesma água que deveria ser brincadeira. O pai, o irmão, a saúde, até a própria verdadeira idade escondida durante anos. Mas se olharmos com atenção, não é disso que fala esta história. Esta é a história de uma mulher que perdeu quase tudo e decidiu que não ia parar, que transformou o luto em música, culpa em memória, segredo em livro, dur em palco.
Aos 82 anos, Wanderlea continua cantando. A menina rebelde de Governador Valadares, a ternurinha da jovem guarda, a mãe marcada pela piscina, a última do trio, ainda em plena atividade. Ela não apagou as tragédias da própria vida. Só escolheu não deixar que elas definissem quem ela é. Se esta história o tocou, se algum dia cantaste uma música da Jovem Guarda, se acredita que ninguém é só aquilo que sofreu, se inscreve no canal.
Aqui contamos o que existe por trás dos ídolos. Para lembrar que no final do dia são seres humanos como nós. E toda vez que se inscreve, comenta e partilha, ajuda estas histórias a continuarem sendo contadas.