A tranquilidade dos moradores da província de Santiago e da região de Jarabacoa foi severamente abalada nos últimos dias por uma sequência de eventos violentos que parecem saídos de um roteiro cinematográfico de suspense e ação. No centro de uma complexa investigação conduzida pela Polícia Nacional, a recente neutralização de Carlos Alberto, amplamente conhecido no submundo do crime como “Gatillo”, no distrito de Hato del Yaque, expôs as engrenagens de uma poderosa e impiedosa estrutura criminosa voltada ao narcotráfico e ao sicariato. O caso, que começou com a execução brutal de uma mulher, desencadeou uma caçada humana que já deixou múltiplos mortos, gerando um clima de extrema tensão e discussões acaloradas sobre a segurança pública e os métodos de atuação das forças policiais.
Para compreender a magnitude dos fatos que culminaram na morte de “Gatillo”, é necessário retornar ao evento que iniciou esta violenta reação em cadeia. Margarita Díaz García, apelidada de “La China”, foi assassinada a tiros no setor de La Yagüita de Pastor, localizado em Bella Vista, na cidade de Santiago de los Caballeros. No momento do ataque, ela caminhava ao lado de seu atual parceiro, Roberto Hans
Sánchez Tejada, conhecido como “El Flaco”. De acordo com os relatórios oficiais fornecidos pelo porta-voz da polícia, Pesqueira, tanto a vítima quanto seu companheiro possuíam um extenso histórico de registros criminais relacionados ao tráfico de substâncias controladas, sendo que Hans também acumulava acusações por homicídio.

As investigações preliminares apontam que o crime não foi um fato isolado, mas sim o resultado direto de disputas territoriais pelo controle de pontos de venda de drogas na região. A audácia dos executores chamou a atenção das autoridades desde o início, desencadeando uma resposta imediata das unidades de inteligência da polícia para rastrear os envolvidos na ação que tirou a vida de Margarita.
A pista do veículo alugado e as mortes em Jarabacoa
A quebra do sigilo dos movimentos dos criminosos ocorreu graças ao monitoramento de uma caminhonete Honda CR-V de cor vermelho-vinho, utilizada pelos autores para fugir do local do homicídio em Santiago. Os investigadores conseguiram determinar que o utilitário pertencia a uma locadora de veículos e havia sido alugado por Rudy Manuel Morán Almonte, conhecido pela alcunha de “La Pólvora”, apontado pelas forças de segurança como um dos principais líderes desta facção criminosa.
O rastreamento tecnológico revelou que, poucas horas após o assassinato de “La China”, o veículo fez uma parada estratégica no setor La Virgen, em Jarabacoa. Dando continuidade às diligências, os agentes localizaram a caminhonete, que no momento era conduzida por uma mulher que foi imediatamente detida para averiguações. Através dos depoimentos obtidos, a polícia localizou uma luxuosa vila de veraneio que servia de esconderijo para os membros da organização.
Ao se aproximarem do imóvel, os policiais foram recebidos a tiros, iniciando-se uma intensa perseguição e confronto armado. Naquela ocasião, Miguel Marín Rodríguez, conhecido como “La Cabra”, de 23 anos, foi baleado e morreu. Com ele, foi apreendida uma pistola calibre 9mm. Paralelamente, em um barranco às margens da rodovia Federico Basilis, também em Jarabacoa, os corpos de Natanael Peña, o “El Cha”, e de outro indivíduo apelidado de “La Rata”, foram encontrados com múltiplas perfurações de bala. A perícia balística da polícia científica confirmou de forma categórica que as armas utilizadas nestes confrontos apresentavam total coincidência com os projéteis extraídos da cena do crime de Margarita Díaz García em Santiago.
O deboche nas redes sociais e o fim de “Gatillo”
O desenrolar dos fatos ganhou contornos ainda mais dramáticos com o comportamento de Carlos Alberto, o “Gatillo”. Horas antes de seu fatídico encontro com as autoridades em Hato del Yaque, o jovem publicou um vídeo nas redes sociais que rapidamente viralizou. Nas imagens, ele aparecia sorridente, limpando detalhadamente uma arma de fogo com uma escova de dentes e ostentando um carregador do tipo “banana”, de alta capacidade. No vídeo, em tom de deboche e ironia, ele minimizava os boatos de que teria sido morto por rivais, afirmando que “ainda tinha muita vida para gozar” e desafiando aqueles que duvidavam de seu poder de fogo.
A ostentação, contudo, precedeu a sua queda. Na tarde de uma quinta-feira, uma grande operação policial envolvendo diversas patrulhas terrestres e unidades motorizadas cercou o perímetro onde “Gatillo” se escondia em Hato del Yaque. Segundo a versão oficial, o jovem, que andava armado e era considerado de altíssima periculosidade, resistiu à ordem de prisão. O cerco resultou em uma troca de tiros intensa que assustou os moradores da comunidade. “Gatillo” foi atingido pelos disparos das guarnições e não resistiu aos ferimentos, tornando-se mais uma baixa nesta sangrenta disputa.
Revolta comunitária: A dor e a denúncia de inocência
Embora a polícia comemore a desarticulação progressiva desta rede de sicariato e narcotráfico, a comoção popular tomou conta das comunidades afetadas, especialmente devido à morte de outro jovem em circunstâncias contestadas pela população. Familiares e vizinhos de um rapaz morto durante as operações em Jarabacoa realizaram protestos clamando por justiça, alegando que ele era um trabalhador completamente inocente e sem qualquer ligação com o crime organizado.
Segundo os relatos desesperados de sua família, o jovem estava no rio realizando a extração de areia em um caminhão quando as patrulhas policiais chegaram ao local em perseguição a supostos assaltantes. Assustado com a chegada repentina e truculenta dos oficiais, o rapaz teria corrido para se proteger, momento em que foi alvejado com múltiplos disparos. Os moradores locais contestam veementemente a versão de “intercâmbio de tiros” apresentada pelas autoridades, afirmando que mais de 50 policiais e dezenas de viaturas encurralaram e executaram um cidadão de bem que nunca teve problemas com a justiça.
Investigações em andamento e caçada aos foragidos
O caso permanece em pleno desenvolvimento e as autoridades da Polícia Nacional asseguram que não darão trégua até que todos os componentes desta engrenagem delituosa sejam neutralizados ou levados aos tribunais. A caçada humana continua intensamente atrás dos principais fugitivos que conseguiram escapar dos cercos recentes. Entre os alvos prioritários da inteligência policial estão os indivíduos conhecidos como “La Pólvora”, apontado como o mentor intelectual e logístico do grupo, “El Viajante”, “Marinito” e outros colaboradores que dão suporte operacional à estrutura de sicariato.
A população de Santiago e Jarabacoa permanece vigilante e temerosa de que novos confrontos possam ocorrer nas áreas urbanas e rurais. Enquanto as forças de segurança tentam restabelecer a ordem através de exibições de força e operações de grande porte, as discussões sobre a linha tênue entre o combate eficaz à criminalidade e os excessos policiais que vitimam inocentes continuam a dividir opiniões e a inflamar debates calorosos nas plataformas digitais e nas esquinas das comunidades dominicanas.