Posted in

Aos 85 anos, Roberto Carlos vive sozinho numa mansão — A solidão do Rei

Aos 85 anos, Roberto Carlos vive sozinho numa mansão — A solidão do Rei

Mais de 120 milhões de discos vendidos, seis décadas de carreira, milhões de fãs que cantam as suas canções de cor em estádios lotados. E, mesmo assim, toda a noite, Roberto Carlos regressa sozinho para uma cobertura silenciosa na Urca, no Rio de Janeiro. Aos 85 anos, o homem que o Brasil inteiro chama de rei vive rodeado de luxo, mas esvaziado das pessoas que mais amou.

 Filhos noutras cidades, netos distantes, amigos que partiram um a um. A mansão existe, o império existe, mas a solidão também existe. E hoje vai perceber porquê. Durante mais de 60 anos, foi a banda sonora do Brasil, dos primeiros beijos às despedidas, da navidade aos casamentos, das noites de rádio aos estádios lotados em três continentes.

Roberto Carlos Braga nasceu a 19 de abril de 1941, numa pequena cidade do Espírito Santo denominada Cachoeiro de Itapemirim. Muito antes de ser o rei, era apenas um rapaz do interior com um sonho e uma guitarra barato. Começou por cantar em grupos locais e nas estações de rádio, numa época em que o Brasil ainda procurava a a sua própria voz na música.

 Em 1961, com apenas 20 anos, lançou o seu primeiro disco. Louco por ti. Ninguém imaginava o que viria a seguir. Nos anos 60, Roberto tornou-se o líder de um movimento que mudou a face da juventude brasileira, a Jovem Guarda. Ao lado de Erasmo, Carlos e Vanderleia, trouxe o rock, as guitarras elétricas e uma energia nova que o país nunca tinha visto.

 A inspiração vinha dos Beatles, da onda Beat, de uma geração que queria mostrar que o mundo estava a mudar e O Roberto estava no centro de tudo. Programa de TV próprio, multidões de jovens a gritar o seu nome, uma revolução cultural com rosto e apelido, mas o tempo faz o que sempre faz, transforma. Quando os anos 70 chegaram, o Roberto deixou para trás o rock e a rebeldia e fez algo que poucos artistas conseguem na vida.

 Se reinventou por completo, tornou-se a grande voz romântica do país. Detalhes, emoções, como é grande o meu amor pela você, cavalgada. Estas não eram apenas canções, eram declarações de amor que todo o Brasil adotou como fazendo parte da própria vida. Quem nunca ouviu uma destas músicas num casamento, num velório, numa reconciliação de madrugada? Roberto O Carlos não cantava canções, cantava momentos da vida das pessoas.

 E os números só confirmam esta grandeza. Mais de 120 milhões de discos vendidos ao redor do mundo. O artista a solo que mais vendeu álbuns em toda a história da música brasileira. O único brasileiro a ultrapassar a marca dos 100 milhões de cópias, pelo menos 35 álbuns, que venderam mais de 1 milhão de unidades cada um.

 Em 1994 tornou-se o artista mais vendido de toda a a América Latina, ultrapassando mesmo os Beatles na região. Ninguém chama alguém de rei à toa. Esse título foi construído disco a disco, concerto a concerto, década a década e tinha um ritual que selou esta coroa de vez. Todos os fins de ano, como um relógio, Roberto lançava um novo disco e aparecia na televisão no especial Roberto Carlos da Rede Globo.

 Para milhões de famílias brasileiras, o ano só terminava verdadeiramente quando Roberto cantava na TV. Era Natal, a família reunida na sala, aquela voz a tomar conta do ambiente enquanto a ceia arrefecia na mesa. Este não era apenas um programa de televisão, era um ritual que durou décadas inteiras.

 E em 2026, com quase 85 anos e quase sete décadas de carreira, o rei segue firme, não parou, não se reformou, não se tornou lembrança. A agenda de concertos internacionais continua cheia. Orlando, Miami, Nova Iorque, Boston, Montery, Guadalahara, Cidade do México, Arenas Lotadas, público a cantar cada verso de cor.

 Roberto Carlos não faz uma digressão por saudade, faz porque ainda é relevante, mas eis o que quase ninguém pára para pensar. Um homem amado por um país inteiro. 120 milhões de discos espalhados pelas casas de famílias em todo o continente. Estáddios onde milhares de vozes cantam as letras dele ao mesmo tempo.

 E mesmo assim, toda a a noite. Quando as luzes do palco se apagam, o rei volta para uma cobertura silencioso num bairro tranquilo do Rio de Janeiro. E é exatamente aí que a a nossa história começa realmente. Quando imagina a casa de um homem que vendeu mais de 120 milhões de discos, provavelmente pensa em algo grandioso.

 Um palácio, portões dourados, uma mansão com o seu nome na fachada. Mas a realidade de Roberto Carlos é bem diferente. Desde os anos 80 que o rei vive num triplex no edifício Golden Bay, na Avenida Portugal. Mesmo em frente à famosa murete da Urca, na zona sul do rio. O prédio tem apenas cinco andares. A portaria é simples.

 A fachada não chama a atenção de ninguém. Visto de fora, parece um edifício comum de um bairro residencial tranquilo, mas lá em cima, nos três últimos andares, esconde-se uma das coberturas mais cobiçadas da cidade inteiro: quatro suites, piscina, salas amplas distribuídas por três pisos e uma vista que poucos endereços no mundo conseguem oferecer.

 De um lado, a Baia de Guanabara. Do outro o pão de açúcar e ao fundo o Cristo Redentor de braços abertos. O luxo de Roberto Carlos não está na fachada, está todo concentrado lá no alto, invisível para quem passa na rua, como se o próprio rei quisesse que fosse assim. E não é só o triplex. Roberto comprou outro apartamento no mesmo prédio para a mãe, a dona Laura.

Ela viveu ali até falecer em 2010, aos 96 anos. mesmo é difícil um andar pro filho, outro paraa mãe. A igreja que ele frequenta, Nossa Senhora do Brasil, fica literalmente na mesma calçada, a poucos passos da portaria, tudo ali, tudo perto, tudo controlado. Com o tempo, aquele troço da Avenida Portugal virou uma espécie de microterritório do rei.

 o prédio onde vive, o apartamento que foi da mãe, a igreja onde reza, os fãs que viajam de longe só para fotografar a fachada do Golden Bay na esperança de ver Roberto aparecer na varanda. Mas estas aparições são raríssimas. quase acontecem sempre uma vez por ano. No dia 19 de abril, quando sai para o balcão para acenar no seu aniversário, enquanto uma multidão canta na mureta lá em baixo, toda a gente sabe que ele está ali dentro, quase ninguém consegue ver.

Read More