Nos últimos dias, os corredores de Brasília foram tomados por uma euforia ensurdecedora da ala bolsonarista. A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal e a derrubada dos vetos presidenciais ao projeto da dosimetria — apelidado de “PL da Anistia” — foram celebradas como o prego final no caixão do governo Lula. Comentaristas políticos apressados e entusiastas da oposição chegaram a decretar o fim precoce do atual mandato. No entanto, agora que a poeira baixou, uma análise mais fria e estratégica começa a emergir, partindo inclusive de dentro da própria direita: o movimento coordenado pelo Congresso pode ter sido um erro tático imenso que, ironicamente, deu a Lula as ferramentas necessárias para um contra-ataque devastador.
A análise mais contundente vem da campanha de Ronaldo Caiado, um dos “cabeças brancas” da política brasileira que, diferentemente da nova ala representada por Flávio Bolsonaro, possui uma visão de longo prazo e conhece profundamente a resiliência de seu ad
versário histórico. Para a equipe de Caiado, a direita caiu em uma armadilha clássica ao subestimar o presidente. Lula, frequentemente ridicularizado por sua origem simples e formação acadêmica limitada, provou ao longo de quatro décadas ser um mestre da sobrevivência política. Como diz o ditado popular citado nos bastidores, “Lula é como cobra: até morta dá medo”.

O grande erro da oposição foi personificar as vitórias legislativas em interesses puramente pessoais e familiares. Ao focar na anistia para os eventos de 8 de janeiro e na derrubada de vetos que, na prática, visam aliviar a situação jurídica de Jair Bolsonaro e seu círculo íntimo, Flávio Bolsonaro abriu um flanco de ataque moral e político sem precedentes. A narrativa de que o Congresso está mais preocupado em “livrar o pai da prisão” do que em governar o país para os 200 milhões de brasileiros ganha força a cada votação que prioriza pautas de blindagem em detrimento de pautas sociais.
A troca de favores entre o senador Davi Alcolumbre e o clã Bolsonaro também revelou bastidores sombrios. Especula-se que a queda de Messias e a aprovação da dosimetria foram o preço pago para enterrar a CPI do Banco Master e outras investigações que tiram o sono de figuras importantes do Legislativo e até de setores do Judiciário. Ao fazer essa escolha, o Congresso se posiciona, na visão do eleitor médio, como um sindicato de interesses próprios. Gleisi Hoffmann, presidente do PT, já deu o tom da resposta governista ao confrontar Alcolumbre publicamente, exigindo a abertura das investigações e carimbando o Parlamento como “inimigo do povo”.

Lula, sentindo o cheiro de sangue político, não tardou a reagir. Em um discurso incisivo de apenas um minuto em rede nacional na véspera do Dia do Trabalho, o presidente retomou sua retórica mais poderosa: a luta de classes. Ao apresentar Jorge Messias como uma “vítima do sistema” que tenta impedir o avanço dos trabalhadores, Lula reconecta-se com sua base operária e com aqueles que se sentem marginalizados pelas decisões de uma elite política encastelada. Ele não falou para os bolsonaristas convictos — a quem seus aliados classificam como “ressentidos” —, mas sim para a massa de brasileiros que busca esperança e melhoria nas condições de vida.
O contraste é gritante e perigoso para a oposição. De um lado, tem-se um governo que, apesar das dificuldades, tenta pautar o fim da escala 6×1 e a manutenção de direitos trabalhistas. Do outro, um candidato como Flávio Bolsonaro que, embora tenha o sobrenome do pai, carece de um projeto econômico sólido e popular. Toda vez que o projeto econômico da direita é exposto — com menções a cortes em aposentadorias ou privatizações impopulares —, a campanha de Flávio entra em modo de desespero e negação, evidenciando uma fragilidade que o PT já começou a explorar.
:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/G/O/ebHJ4wRWSBrZvy3uiHlA/whatsapp-image-2025-06-03-at-13.15.30.jpeg)
A percepção de analistas como Daniela Lima reforça que o conuio entre bolsonaristas, o Centrão e interesses pontuais de ministros do STF como Alexandre de Moraes — que atuou nos bastidores contra Messias para manter seu poder de influência — pode ter gerado uma vitória de Pirro. Eles ganharam a batalha legislativa, mas podem ter perdido a guerra narrativa. Ao radicalizar o discurso e focar na defesa do trabalhador contra as “elites do Congresso”, Lula encontra um fôlego que muitos julgavam extinto.
Portanto, subestimar a estrutura do PT e a inteligência política de Lula é um erro que a direita pode pagar caro em 2026. Enquanto Flávio Bolsonaro celebra o que chama de “fim do governo”, Lula e sua equipe técnica e política trabalham para transformar cada derrota no Congresso em um combustível para a mobilização popular. O governo não acabou; ele pode estar apenas começando uma fase de radicalização em defesa de sua base, algo que historicamente sempre favoreceu o petismo em momentos de crise. Se a direita continuar priorizando a blindagem jurídica de seus líderes em vez de apresentar uma alternativa real e empática para o país, ela poderá descobrir, tarde demais, que ajudou a eleger seu maior adversário mais uma vez.