Ganhou o prémio Sassi de melhor ator. Recebeu uma bolsa de estudo para França, na cidade de Nancy. O menino do camião de mangas estudava agora teatro na Europa, mas foi na Rede Globo que Lima Duarte se tornou naquilo que o Brasil conhece. Depois de anos na TV Tupi, onde enfrentou dificuldades financeiras enormes por conta do colapso da emissora, foi contratado pela Globo e em 1973 tudo mudou de patamar.
Na novela O bem amado de Dias Gomes, Lima interpretou o Jagunço Zeca Diabo. Para criar a personagem, imitou a voz fina de um parente. A escolha foi tão precisa que Zeca Diabo se tornou um dos personagens mais marcantes da história das telenovelas brasileiras. Lima foi premiado, o público não esqueceu.
Depois veio o Som Brasil em 1984, onde substituiu Rolando Boldrin e passou a apresentar o programa que celebrava a música sertaneja de raiz. Ali ele não era personagem, era ele próprio. E o público descobriu que Lima Duarte não era apenas ator, era contador de histórias. lia Guimarães cor-de-rosa no ar, trazia o interior de Minas para dentro da sala de milhões de brasileiros.
E depois chegou 1985, Roque Santeiro, sinozinho malta, o lavrador tod-peroderoso, com pulseiras de ouro no punho e um bordão que se colou na boca do país inteiro. Estou certo ou estou errado? Lima Duarte criou aquele gesto, aquele agitar de mão, aquela arrogância cómica que fazia o Brasil rir e repetir. Foi dele.
Não estava no roteiro de Dias Gomes, nem de Agnaldo Silva. Nasceu no sete, na intuição do ator. 4 anos depois, em 1989, veio Sassamutema em O Salvador da Pátria. E depois aconteceu algo que ultrapassou a ficção. O personagem era tão real, tão visceral, tão próximo do povo brasileiro que Lima Duarte recebeu um convite que nenhum ator esperaria receber.
ser candidato a vice-presidente da República ao lado de Mário Covas. A política queria utilizar o que a arte tinha construído. Lima recusou, mas o facto de o convite ter existido mostra o tamanho que tinha naquele momento. Era o auge absoluto. Lima Duarte era um dos rostos mais conhecidos do Brasil.
Novelas, prémios, contratos, respeito da crítica e público. O menino de desemboque tinha chegado onde ninguém imaginava. Mas ao rever as entrevistas dessa época, é possível notar algo que quase ninguém quis ver. Um cansaço nos olhos, uma pausa demasiado longa entre uma resposta e outra, como que por detrás de toda aquela glória algo silencioso e pesado já estivesse a formar-se.
Os anos 90 chegaram e com eles uma estranha contradição. Lima Duarte era um dos atores mais respeitados do Brasil. O seu nome estava em cartaz, o seu rosto estava nas revistas, o seu bordão estava na boca do povo. Mas dentro de casa a história era outra. Lima casou três vezes. A primeira com a atriz Marisa Sanchez, entre 1951 e 1961.
Desta união, tornou-se padrasto de Débora, que adotou o apelido Duarte, e também se tornou atriz. O segundo casamento foi com Marta Godói de Freitas. entre 1965 e 68. Durou 3 anos. O terceiro com Mara Martins, entre 1970 e 89. Com Mara teve três filhos, Júlia, Mónica e Pedro, de 19 anos juntos. E mesmo assim não durou.
Três casamentos, três divórcios e uma frase que soltou décadas depois, aos 91 anos, num vídeo do Instagram que diz mais do que qualquer novela poderia inventar. Eu nunca fui amado. Um homem que viveu tantos amores na ficção, que fez com que o país inteiro acreditasse em paixões impossíveis, sentado na varanda de um sítio sozinho, a dizer que nunca sentiu verdadeiramente o que interpretou centenas de vezes.
Ele falou também de Maite Proença. Em 1989, durante O Salvador da Pátria, Lima confessou à revista Playboy que se tinha apaixonado pela colega de cena. Claro, Estou, sim”, disse. E descreveu os pormenores com uma honestidade que não se esperava de um homem público. Confesso que à noite em casa fico a pensar como ela é bonita, tem uma pestana assim, um lábio assim.
Mas recusou qualquer cena de beijo entre Sassá e Clotilde. Disse que iria à direção da Globo, se fosse necessário, que se rebeldia, não por puritanismo, mas por respeito à personagem. O Sassá não podia beijar a Clotilde e o Lima Duarte separava a ficção da realidade melhor do que qualquer pessoa, mesmo quando a realidade doía mais.
Anos depois, já no sítio, revisitou o assunto com resignação. A Maitê deve ter amado o Sassam. Nós brincamos, nos divertimo-nos, mas nunca mais a vi. A vida levou-nos para outros cantos, mas torço sempre para que ela seja feliz. Uma frase bonita. Mas se ouvir com cuidado, é uma frase de despedida de alguém que compreendeu que certas coisas não foram feitas para ele.
Enquanto a vida pessoal continuava instável, a carreira continuava produtiva, mas o cenário ao redor estava a mudar. A TV Tupi, onde Lima Duarte tinha começado tudo, onde passou 26 anos da vida, já tinha ido embora, faliu, desapareceu. E com ela, toda uma geração de profissionais que ajudaram a construir a televisão brasileira ficou sem chão.
Lima sobreviveu porque foi para a Globo, mas nunca esqueceu o que viu naquele fim. As dificuldades financeiras, o caos interno, os colegas que não tiveram a mesma sorte. A TV Tupi foi o primeiro mundo que viu desmoronar, não seria o último. Na Globo, Lima Duarte continuou a trabalhar, fez pecado capital, o muito amado Roque Santeiro, o salvador da pátria, Renascer, O rei do gado, uma lista que qualquer ator do mundo invejaria.
Mas com o passar do tempo, os papéis foram ficando mais pequenos, as novelas foram mudando, a estação foi mudando e Lima, que sempre teve uma opinião forte, começou a sentir que o espaço estava encolhendo. Ele próprio deu pistas do que acontecia nos bastidores. Em 2021, isolado no local durante a pandemia, gravou um vídeo em que disse a rir, mas com um peso que o riso não disfarçava.
Não queira saber o que é, ou melhor, o que eram os estúdios Globo. Orgulhos, egos, ódios, amores, tudo no mesmo local. Uma frase solta. Mas quem conhece os bastidores da televisão sabe que frases soltas de veteranos transportam décadas de silêncio acumulado. Os últimos trabalhos grandes na Globo foram Caminho das Índias em 2009, onde interpretou o Bram Chancar e Araguaia em 2010.
Depois disso, as aparições foram ficando cada vez mais raras. Em 2015, aceitou o convite da TV Cultura para apresentar o programa Viola, minha Viola. Naquele mesmo ano, participou em I Love Paraisópolis, interpretando o mafioso Dom Pepino. Em 2017, fez o avô da protagonista de Bianca Bin, ao lado de Fernanda Montenegro, em Etaam Mundo Bom, mas já não era o Lima Duarte de antes, não talento que continuava intacto.
No lugar, ele já não se enquadrava no ritmo que a televisão tinha assumido. E então veio a pandemia. 2020. O mundo parou e para Lima Duarte, aquele silêncio forçado funcionou como um espelho. Estou preso há um ano. Não saio deste paraíso para nada, disse sobre o sítio em Indaiatuba. Ouço música e leio o dia inteiro.
Também vejo novelas antigas. Ele estava se reencontrando-se consigo mesmo, mas ao mesmo tempo estava a despedir-se de um mundo que já não reconhecia. Desde que refugiou-se no campo, Lima aceitou apenas dois projetos, a série Aruanas em 2021 e uma participação em Para além da Ilusão em 2022.

Na segunda, partilhou o ecrã com a neta Paloma Duarte pela primeira vez. Foi um momento bonito, mas também houve cara de último capítulo. Em novembro de 2021, o Brasil apanhou um susto. Lima Duarte surgiu nas redes sociais com o cara ferida, olhos roxos, marcas visíveis. Tinha tropeçado e caído no sítio. A assessoria tranquilizou. Ele já está bem.
Não teve de ficar hospitalizado, continua duro na queda. Mas a imagem daquele rosto marcado de um homem de 91 anos sozinho numa quinta ficou na memória de quem viu. Era o retrato de uma fragilidade que sempre recusou a admitir. E por detrás de tudo, havia algo que ele transportava em silêncio e que poucos entendiam de fora.
Lima Duarte, o homem que viveu tantas vidas na ficção, declarou abertamente que é ateu. Num país onde a fé é quase uma obrigação social, ele escolheu acreditar apenas no que podia ver e tocar. Na memória, território da emoção, é que eu encontro grandes coisas que me valem a alma, que me salvam o espírito, que dão vida para mim, disse ele.
Não procura Deus, procura o passado, vive dele. Alimenta-se de recordações, como outros alimentam-se de oração. E depois chegou o dia em que ninguém esperava, o dia em que tudo se desmoronou de vez. Em fevereiro de 2024, Lima Duarte pegou no telemóvel e abriu o Instagram. tinha quase 900.000 seguidores, gente que o acompanhava, que mandava mensagem, que comentava nos vídeos.
Mas nesse dia não gravou nenhum vídeo sorridente, não fotografou pássaro nenhum, não contou história de bastidor. Escreveu uma frase de Shakespeare e publicou junto de uma foto com a filha. Quando todos os que conheço se forem, o que restará? vazio. Silêncio. Sim, o resto é silêncio. Júlia Martins, a mais nova de Lima Duarte, tinha morrido.
Tinha 49 anos. A causa da morte não foi divulgada pela família, até hoje permanece desconhecida do público. E este silêncio, que em qualquer outra circunstância seria apenas descrição, no caso de Lima Duarte, ganhou outro peso, porque era o silêncio de um pai de 93 anos enterrando uma filha, um pai que já tinha dito meses antes que duplicando a esquina o que o esperava era a morte.
Mas a morte não lhe chegou, veio para a filha. E este é um tipo de dor que nenhum guião de telenovela consegue reproduzir. A Júlia era discreta, tinha menos de 200 seguidores no Instagram, levava uma vida longe dos holofotes, ao contrário da irmã Débora, que seguiu a carreira artística, e das netas Paloma e Daniela Duarte, que também se tornaram atrizes.
A Júlia era o pedaço de Lima Duarte que não pertencia à televisão. Era o pedaço que era só dele e agora tinha-se ido embora. Nos dias que se seguiram, Lima Duarte procurou consolo onde poucos esperariam. O homem que se declarou ateu toda a vida foi visto num centro espírita. A mesma espiritualidade que a mãe América carregava e que tinha deixado de lado há décadas reapareceu num momento de desespero.
Rezar muito foi o que disseram que ele repetiu, não como uma conversão, mas como um gesto de um homem que, pela primeira vez na vida, não encontrava dentro de si mesmo as respostas que precisava. E como se a dor não bastasse, menos de um ano antes da morte de Júlia, Lima já tinha enfrentado outro trauma. No dia 1 de março de 2023, aos 92 anos, estava a conduzir em Indaiatuba quando se envolveu num acidente de trânsito.
Ao mudar de faixa, sem sinalizar, embateu com a moto de uma mulher chamada Simone Regina. A motociclista caiu e fraturou cinco ossos. Precisou de cirurgia, duas placas e nove parafusos. Lima O Duarte ficou no local, prestou socorro e esperou pela ambulância. Duas semanas depois, fez um acordo extrajudicial de R$ 30.
000 para cobrir despesas médicas, mas o caso não terminou ali. Simone tentou anular o acordo em tribunal, alegando que o valor era insuficiente para cobrir os danos físicos e emocionais que sofreu. O processo foi parar à 31ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, que em dezembro de 2024 manteve a validade do acordo original.
Para Lima Duarte, a questão judicial já estava resolvida. Mas a marca emocional de ter magoado alguém aos 92 anos, conduzindo sozinho numa cidade do interior, ficou. E é aqui que a história de Lima Duarte separa-se da história de outros grandes atores brasileiros. Porque ele não caiu por causa de escândalo, não perdeu tudo por causa de vício, não foi destruído por uma polémica pública.
Lima Duarte foi sendo corroído por algo muito mais silencioso. O tempo. O tempo levou a que a TV Tupi, levou os três casamentos, levou a juventude, levou os amigos. Muitos deles foram morrendo ao longo dos anos, um a um, como acontece com quem chega aos 96. levou a filha e levou aos poucos o mundo que ele conhecia.
Ele próprio descreveu isso com uma lucidez que corta. Eu volto sempre, regresso o dia inteiro, vivo do passado. O que ficou, isso sim, isso fez-me empurra, faz-me rir, alimenta-me. Isso é tudo. Lima Duarte não vive no presente. Ele habita a memória. E a memória para ele não é nostalgia, é oxigénio. Dentro da casa de Indaiatuba, a sala que funciona como museu pessoal ganhou um peso diferente depois de tudo o que aconteceu.
Cada objeto de cena, cada quadro, cada livro daquela estante representa uma vida que ele viveu quando ainda estava rodeado de gente. Shozinho Malta, Sassamutema, Zeca Diabo, Salviano Lisboa. Personagens que tinham família, tinham amor, tinham poder. Agora, o homem que os criou vive entre paredes silenciosas, com uma neta que visita quando pode, uma filha que aparece de tempos a tempos e o som dos pássaros que ele insiste em fotografar.
O tributo que a Globo produziu em 2024, exibido no Globo Play, foi filmado em grande parte ali no sítio. Vieram colegas como Laura Cardoso, Zezé Mota, o autor Manuel Carlos. Gravaram testemunhos, relembraram histórias. E Lima Duarte assistiu a tudo com aquele mesmo olhar que descreveu uma vez, cansado, mas firme, agradecido, mas sem ilusão.
No tributo, disse a frase que talvez resuma tudo. Na memória, território da emoção, é que encontro grandes coisas que me valem a alma, que salvam-me o espírito, que dão vida para mim. Eu volto sempre. O que é o futuro para mim? Dobrando a esquina, o que é que está à minha espera? A morte, não sou nenhum idiota. Não era desespero, não era depressão, era a constatação serena de um homem de 94 anos que já tinha feito as contas, que sabia exatamente onde estava no caminho e que não tinha medo de dizer em voz alta o que a maioria das pessoas
passa a vida inteira a evitá-lo. O que surpreende, no entanto, é que mesmo depois de tudo isto, da morte da filha, do acidente, do isolamento, da idade, Lima Duarte não parou. Em março de 2025, no 95º aniversário anos, publicou um vídeo nas redes sociais que acumulou mais de 600.000 gostos no TikTok.
Nele revisitou a própria história, citou cada personagem marcante e deixou uma frase que se tornou viral: “Quando eu partir, saibam que cada personagem que vivi continuará vivo para sempre, porque a arte é eterna e eu sou apenas um porta-voz da eternidade.” Mas a história de Lima Duarte não se ficou por ali.
O que aconteceu depois surpreendeu toda a gente. Em 29 de março de 2026, Lima Duarte completou 96 anos e fez questão de gravar um recado. Desta vez, não falou de personagens, não revisitou telenovelas, não citou Sinhzinho Malta, nem sassamos o tema. Ele olhou para a câmara e disse algo que ninguém esperava.
Eu tenho visto por aí imagens minhas a completar 100 anos. É uma tal de inteligência artificial. Eu ainda não cheguei aos 100. Estou a fazer 96. E completou com uma calma que só quem já fez as pazes com o tempo consegue ter. Não estou ansioso para o meu centenário. Eu quero viver o mais lentamente possível.
Viver devagar? É essa a escolha de Lima Duarte. Hoje no sítio em Indaiatuba, acorda sem pressa, cuida do jardim, planta árvores, fotografa a natureza com o telemóvel e grava vídeos para os quase 1 milhão de seguidores que o acompanham no Instagram. Ele, que inaugurou a televisão brasileira em 1950, fala agora com o público pelo mesmo aparelho que transporta no bolso.
Sem equipa, sem guião, sem realizador. Só ele e a câmara. A filha Débora e a neta A Paloma visitam quando podem. A atriz Bianca Bin, que é vizinha, aparece de vez em quando, mas a maior parte do tempo Lima está sozinho e não se queixa. Ele escolheu isso. A vida deu-me escolhas e só agora consigo ver com clareza quais as escolhas que fiz que me levaram a viver tudo o que eu vivi”, disse no dia do aniversário.
Uma dessas escolhas foi ser ator, um trabalho incrível que me mostrou o mundo. E então ele acrescentou algo que fez com que o Brasil parar por alguns segundos. Mas a vida não foi só trabalho. Existiram muitas histórias longe dos meus personagens. Eu também vivi fora dos holofotes. Experimentei grandes alegrias, tristezas profundas.
Tive medos enormes e coragem ainda maiores do que os medos, mas foram os amores que me transformaram. Eu tive a felicidade enorme de amar e ser amado. Amar e ser amado. O mesmo homem que 5 anos antes disse que nunca foi amado, agora, aos 96, corrigiu a própria história. Talvez a solidão do sítio tenha feito o que 70 anos de televisão não conseguiram.
dar-lhe tempo suficiente para ver o que sempre esteve ali. Envelhecer lúcido é poder ter a experiência humana completa, disse, é viver todas as fases da vida do início ao fim, ser um ponto de vista que testemunhou ciclos e mudanças, um ser que se adaptou a diferentes mundos há mais de nove décadas.
Que sorte a minha ter saúde, lucidez, para agradecer a todas as pessoas que fizeram parte do a minha caminhada. Lima Duarte não quer voltar, não quer mais uma novela, não quer mais estúdio. Ele quer o verde, o silêncio e o direito de recordar. E talvez seja essa a maior lição que um homem de 96 anos pode deixar para um país que idolatra a fama, mas se esquece de perguntar.
E depois da fama, o que sobra? No caso de Lima Duarte, sobrou algo que nenhum contrato garante e nenhum ibope mede. Sobrou a consciência de quem viveu verdadeiramente dentro e fora da ficção. E acha que a fama vale o preço que ele pagou? Contem-me nos comentários, eu leio todos. Se este vídeo chegou até aqui contigo, subscreve o canal, é de graça e ajuda-me a continuar a contar essas histórias.

E está a ver esse vídeo aparecendo no seu ecrã agora? É a história da Letícia Spiller. Casou aos 21, separou-se com um bebé ao colo e o preço que ela pagou pela fama vai-te surpreender. É só clicar e continuar comigo.