Posted in

O Envelhecido Perfume da Traição

Capítulo 1: O Envelhecido Perfume da Traição

O envelope de papel artesanal importado trazia o brasão dos Albuquerque impresso em relevo seco. Dentro dele, um cartão texturizado exalava o aroma sutil de sândalo, o perfume pessoal de Leonardo. A tipografia dourada brilhava sob a luz fraca da minha pequena sala de estar, anunciando o evento que paralisaria a alta sociedade do Rio de Janeiro.

“Inauguração do Terminal Marítimo Atlântico Sul. Um marco histórico liderado por Leonardo Albuquerque e sua esposa, Mariana Albuquerque. Beatriz, sua presença é indispensável para testemunhar o triunfo daqueles que sabem governar o próprio destino.”

No canto inferior esquerdo do convite, logo abaixo das instruções de vestimenta, havia uma anotação manuscrita com a caligrafia apressada e arrogante do meu ex-marido: “Reservamos um lugar para você na mesa dos fundos, perto da copa. Achei que se sentiria mais confortável perto do ambiente de onde nunca deveria ter saído.”

Olhei para aquele pedaço de papel e não senti lágrimas. O tempo do choro havia secado na minha alma exatamente trezentos e sessenta e cinco dias atrás. Meu nome é Beatriz Costa. Durante sete anos, eu fui a força silenciosa por trás da Albuquerque Logística. Enquanto Leonardo desfilava em jantares de negócios e sorria para as colunas sociais, eu passava as madrugadas analisando contratos de afretamento, negociando com sindicatos portuários e revisando relatórios alfandegários complexos.

Para a tradicional e aristocrática família Albuquerque, no entanto, eu era apenas a filha de um mestre de obras que tivera a audácia de se casar com o herdeiro do império. Dona Margarida, minha ex-sogra, nunca escondeu o seu desprezo. Lembro-me de cada almoço de domingo onde ela apontava para as minhas roupas, criticava o meu sotaque da zona norte e sussurrava para as amigas sobre a minha suposta incapacidade de dar um herdeiro legítimo à linhagem dos Albuquerque.

O pior golpe não veio dos inimigos declarados, mas do homem a quem dediquei a minha juventude. No dia em que finalmente assinamos o maior contrato de expansão da história da empresa, o projeto do novo terminal portuário, fui recebida na sede por oficiais de justiça.

Leonardo havia me denunciado ao conselho de administração por desvio de fundos e espionagem industrial. Apresentou relatórios auditados falsos, transferências bancárias forjadas para contas em paraísos fiscais no meu nome e depoimentos comprados de funcionários que eu mesma havia treinado. Fui expulsa da minha própria sala sob os olhares de desdém dos diretores.

Quando cheguei em nossa cobertura em pânico, encontrei Mariana, minha até então assistente e confidente, embalando minhas roupas em sacos de lixo pretos. Ela usava os brincos de esmeralda que pertenciam à minha avó.

— O mercado não tolera amadorismo, Beatriz — disse Leonardo, surgindo atrás dela com um copo de uísque na mão. — Você foi útil para carregar os tijolos, mas Mariana tem o sobrenome e as conexões que o novo terminal exige.

— Você sabe que eu nunca peguei um centavo — respondi, com a voz embargada.

— O juiz não acha isso — ironizou ele, estendendo-me os papéis do divórcio litigioso. — Considere-se sortuda por eu não exigir a sua prisão. Estou sendo generoso ao deixá-la apenas na miséria.

O processo de divórcio correu em segredo de justiça, manobrado pelos advogados mais caros do país. Saí daquela relação sem direito a um único centavo das ações da empresa, carregando uma dívida milionária por perdas e danos e com o meu nome completamente destruído no setor portuário. Mudei-me para um apartamento conjugado, passei meses sobrevivendo de pequenos trabalhos de consultoria anônima e vi meu pai adoecer e falecer devido à vergonha pública que nossa família sofreu.

Leonardo acreditou que havia me enterrado viva. Ele só não contava com o fato de que, no submundo dos arquivos mortos da empresa, eu havia guardado uma chave. Uma chave que me levou até o maior segredo da família Albuquerque. Uma ligação telefônica recebida na noite do enterro do meu pai mudou o rumo da minha história. Uma voz debilitada, que muitos juravam ter sido silenciada pelo oceano, revelou-me a verdade por trás do império.

Capítulo 2: O Asilo dos Esquecidos

A viagem até a clínica de repouso Serenidade, localizada em uma região isolada da serra fluminense, foi feita sob uma chuva torrencial. O prédio de arquitetura colonial era cercado por muros altos e vigiado por câmeras de segurança que pareciam excessivas para um simples abrigo de idosos.

Ao meu lado, no banco do passageiro do meu carro antigo, estava uma pasta de couro desgastada contendo os documentos originais da fundação da Albuquerque Logística.

— Tem certeza de que ele está aqui? — perguntei a mim mesma, sentindo o coração bater contra as costelas.

A enfermeira que aceitara o meu suborno abriu a porta lateral de serviço. Caminhamos por corredores que cheiravam a desinfetante industrial e abandono. No final do pavilhão C, numa sala sem janelas para o jardim principal, estava o homem que a história oficial da família havia apagado.

Read More