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Ela Levou um Tiro Protegendo os Filhos… e Ele Voltou Tarde Demais Para Salvar Sua Família

Cada vez que a Mirela tentava conversar, ele desviava. Cada vez que ela estendia a mão, encontrava uma desculpa para sair. Naquela manhã, a última manhã normal que teriam, Isaac acordou com o alarme a tocar às 6. A Mirela já estava de pé a preparar o café. Ele entrou na cozinha ainda estremunhado, e ela virou-se com um sorriso cansado, mas verdadeiro. “Bom dia”, disse ela.

 E havia tanto carinho naquelas duas palavras que Isaac sentiu uma pontada de culpa. Aproximou-se, beijou a testa dela num gesto automático e estava prestes a pegar na chávena quando Mirela segurou-lhe a mão apenas por um segundo, os dedos dela nos dedos dele, um toque leve que dizia: “Eu ainda estou aqui. Tu não está sozinho”.

 Isaac olhou nos olhos castanhos da mulher, com quem partilhava a vida a 12 ranos e teve vontade de contar tudo. O medo, a pressão, a sensação de estar a falhar, mas o orgulho foi mais forte. Ele apertou-lhe a mão de volta e soltou. Preciso de ir, foi tudo o que disse. Depois de Isaac sair, Mirela ficou ali parada na cozinha, ouvindo o som do carro dele, afastando-se.

 Ela respirou fundo, secou as mãos no pano de cozinha e caminhou até ao quarto. Abriu a gaveta da cómoda, onde guardava coisas importantes, certidões de nascimento dos rapazes, documentos e uma carta que ela tinha escrito quatro dias antes. A letra dela, inclinada e cuidadosa, ocupava duas páginas de um papel de cor creme.

Mirela passou os dedos sobre as palavras sem ler de novo, porque já sabia cada frase de cor. Eu ainda te amo, Isaac, e Sei que também me amas, mesmo que se tenha esquecido de como demonstrar. Vamos tentar de novo. Ela quase pegou na carta. Quase. Mas algo a fez hesitar. Talvez o medo da rejeição, talvez a sensação de que o timing ainda não estava certo.

Então ela fechou a gaveta e foi acordar os meninos para a escola. O dia passou como todos os outros dias daquelas últimas semanas, tenso, arrastado, pesado. Isaac ficou até mais tarde no trabalho, tentando fechar uma venda que não fechou. Quando finalmente entrou no carro para regressar a casa, já passava das 8 da noite.

 Conduziu devagar, sem vontade de chegar. A casa estava acesa quando estacionou. Através da janela da sala, Isaac viu Lucas no sofá a mexer no telemóvel e Gabriel a desenhar no chão. Uma cena doméstica comum, mas que de alguma forma o deixou ainda mais irritado. Não sabia explicar porquê. Talvez porque aquela normalidade toda parecia cobrar-lhe algo que ele não conseguia mais dar.

 Isaac entrou e foi diretamente para o quarto, sem cumprimentar ninguém direito. A Mirela estava a dobrar roupa na cama. Ela olhou para ele com aquela expressão que ele conhecia bem, aquele misto de preocupação e cansaço. Oi, já jantou? Não tenho fome. Isa que precisamos de conversar. E lá estava a frase que mais temia. Mirela sentou-se na beira da cama e fez um gesto para ele se sentar também.

 Mas Isaac ficou de pé, com os músculos tensos. Sobre o quê? Sobre tudo. Sobre nós? Sobre como estás. Ela pegou numa pilha de contas na mesa de cabeceira e colocou entre os dois. Água, luz, cartão de crédito, todas com a data de vencimento já passada. A gente está atrasado outra vez, Isaac.

 E eu sei que estás sob pressão no trabalho. Eu sei, mas precisamos conversar sobre o assunto. Sobre nós? Sobre Sobre o qu, Mirela? A voz dele saiu mais elevada do que ele pretendia. Sobre como eu não estou a dar conta. Sobre como sou um fracasso. Eu não disse isso, mas é o que pensa. Mirela levantou-se, aproximou-se dele com as mãos estendidas numa tentativa de acalmar, mas Isaac recuou.

 Eu acho que deve procurar ajuda, Isaac. Terapia, talvez. Não tá bem. E terapia? Ele deu uma riso amargo. Acha que eu sou o problema? Não é isso que eu eu estou aqui matando-me todos os dias para sustentar essa casa enquanto me fica a cobrar, me julgando, dizendo-me que preciso de terapia como se eu fosse louco. Isaac, por favor, estás a entender mal.

Mas ele já não estava a ouvir. A raiva de semanas, de meses, de anos, talvez, explodiu tudo de uma vez. E então ele disse: “As palavras que não devem nunca ter sido ditas. Vamos separar-nos. Estragaste a minha vida.” O silêncio que caiu sobre o quarto foi absoluto. Mirela ficou pálida, como se tivesse levado uma bofetada.

 Os olhos dela se encheram-se de lágrimas, mas ela não chorou, apenas ficou ali congelada, olhando para o homem com quem se tinha casado e não o reconhecendo mais. Isaque pegou nas chaves do carro que estavam sobre a cómoda e saiu do quarto. Passou pela sala onde Lucas e Gabriel ainda estavam, sem olhar para eles. Bateu a porta ao sair e Mirela ficou sozinha no quarto, segurando as contas nas mãos trémulas, tentando perceber como tudo tinha desmoronado tão rápido.

 Isaque conduziu sem destino durante 20 minutos antes de parar no primeiro bar que viu aberto. Era um simples bar de esquina, com mesas de plástico no passeio e uma televisão velha pendurada na parede, mostrando um jogo de futebol que ninguém parecia estar a assistir. Ele sentou-se ao balcão e pediu uma cerveja, depois pediu outra. E outra.

 O telemóvel vibrou no bolso. Era a Mirela. Isaac olhou para o nome dela no ecrã e sentiu uma apontada de algo que poderia ser remorso, mas que sufocou com mais um gole. Não, ele precisava deste momento. Precisava de paz. Deixou o telemóvel de lado e voltou à atenção para o copo que está à sua frente. Problemas em casa? O dono do bar, um homem de cerca de 50 anos com barriga proeminente, limpava copos enquanto fazia a pergunta casual de quem.

 Já viu muitos homens sentados nesse mesmo banco com a mesma expressão derrotada. Nem imaginas, Isaac murmurou. Mulher sempre é. O homem riu-se, mas era um riso sem alegria. Elas não compreendem a pressão que a gente sofre, não é? Acham que é fácil sustentar uma casa, pagar as contas, aguentar chefe no pé.

 Isaque concordou com a cabeça, sentindo-se momentaneamente validado. Sim, era exatamente isso. Ninguém entendia. Ele era o vilão por estar stressado, por necessitar de um momento sozinho, por não ser perfeito o tempo todo. O telemóvel vibrou uma e outra vez. Isaac virou o aparelho com o ecrã para baixo e pediu whisky. Eram quase 10 da noite.

 Quando o telefone começou a tocar insistentemente. Isaac, já embriagado, pegou no aparelho com irritação. 12 chamadas perdidas, mas não eram de Mirela, eram de Lucas. Um frio percorreu a espinha dele. O Lucas nunca ligava. O miúdo de 12 anos preferia mandar mensagem ou simplesmente ignorar o pai. Se estava a ligar tanto assim, era porque algo estava errado.

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